Histórias de Moradores de Belford Roxo

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores da cidade.


História da Moradora: Sandra Lima
Local: Rio de Janeiro
Publicado em: 19/05/2015






História: Bom Pastor, diário de Sandra Lima

Sinopse:

Ainda muito pequena, por volta dos 5 anos, meus pais tiveram uma dificuldade financeira e ficaram sem ter para onde ir, com meu irmão de 7, e minha irmã de 2 e eu. Meu pai, um português de coração enorme, sempre teve o hábito de ajudar pessoas e sem prever o futuro, uma das pessoas que ele ajudou, abriu as portas da sua casa para a gente morar, e nessa casa, casa da Deia na Cidade de Deus, fomos morar a família negra da Cidade de Deus, dividia conosco o que não tinham. Aos 09 anos fui morar no Bom Pastor (Belford Roxo) com meus pais dessa vez em nossa casa própria, que só foi conquistada graças ao apoio da Deia e esposo.

Ao chegar no Bom Pastor, na rua Ponta Negra, deparei com uma vizinhança 90% negra e aquelas pessoas, que moram até hoje lá, foram a maior referência de honestidade, lealdade amor e solidariedade que tive na vida. Adotei Adelaide como minha mãe, e vó Maria como avó, e a essas pessoas devo muito já tínhamos a casa, mas muitas vezes eram elas que matavam nossa fome. Por conta dessa história, meu diário virou roteiro de um longa de Julio Pecly, Paulo Silva e Leandro Firmino da Hora, longa que era o sonho de Julio, e é o sonho do Leandro, que inclusive foi comigo e a equipe da HBO, filmar lá, conheceu minha gente e saiu de lá encantado.

História
:

Chegando ao Bom Pastor. O Ano é 1979, mas parece que foi ontem que chegamos ao Bom Pastor. Fecho os olhos e quase posso sentir o cheiro do barro molhado e contemplar o verde das matas, e o vermelho do barro. Saímos da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, onde morávamos de favor, e finalmente estávamos festejando a nossa casa própria. Apesar das muitas lutas, a história de amor de meus pais era um orgulho para nós, um lar cheio de ternura e respeito, e principalmente amor. Ali estava a minha mãe, a garota da Zona Sul, culta, cheia de boas maneiras, acostumada com uma vida social, indo para o Bom Pastor, um lugarzinho distante, simples, sem recursos algum, sem água encanada, sem luz. Tudo por amor ao meu pai, um português motociclista, aventureiro, cabeludo, descabelado e desbocado, mas com o coração mais puro que já conheci na vida.

Na boleia do velho caminhão azul do meu pai vínhamos eu e meu irmão Alexandre e na frente, minha irmã mais nova, Beth, ao lado dos nossos Pais. Assim que avistei o Bom Pastor, uma sensação de felicidade invadiu meu coração, não sei se esse sentimento era por saber que estávamos indo pro que era nosso ou se eu estava prevendo que ali eu passaria os anos mais marcantes e belos da minha vida. Para minha mãe, era a terra do sol nascente, onde um novo sol nascia pra ela. Para mim, era a terra, das minhas raízes, onde eu plantaria e colheria os frutos de uma vida.

Logo que chegamos, minha mãe conheceu Adelaide, a mulher que se tornaria a melhor amiga de toda a sua vida. Estávamos em casa, arrumando as coisas, quando alguém coloca a cara na janela e diz: - Só faltava essa! Agora temos uma branca azeda na rua! - Disse isso rindo, e entregou um pedaço de bolo de fubá pra minha mãe, que respondeu rindo: - Quase achei que estava numa senzala! - Adelaide ri, e como não podia deixar de ser, da mais uma espetada: -Não vai comer o bolo não?! Porque, não come comida de negro? Minha mãe responde: - Obrigada, e se não tiver bom, te ponho no tronco e dou uma boa surra, pra aprender a cozinhar! (muitos risos). A partir daquele dia, ambas se tornaram quase irmãs de sangue, sempre uma ajudando e amparando a outra, uma amizade linda e verdadeira que já dura 30 anos.

Primeira semana em Bom Pastor...Chegou a sexta feira, dia em que todas as mulheres se reuniam pra lavar roupas. Minha mãe era a única mulher branca da rua e quase do bairro todo, acho que ela aprendeu muito com aquelas grandes guerreiras. Para chegar ao lago onde se lavava as roupas, andávamos entre trilhas de matas e morros. Para as crianças, era um dia de festas. Enquanto as mães trabalhavam, nós caçávamos borboletas, arrancávamos tomates do mato pra comer. Foi na primeira semana após a chegada, num desses encontros em que as mulheres da rua ponta negra se encontravam, que minha mãe, conheceu Laurinda e Marilsa. E lá iam as mulheres com trouxas na cabeça, e baldes na mão.

A Grande Fogueira. A vida é mesmo um grande mistério...Não tínhamos brinquedos, roupas, bom alimento, passeios, TV, computador, nada material, no entanto, éramos tão felizes, que seria impossível descrever. Com o passar do tempo, fui percebendo que a inocência nos torna felizes, nos protege das maldades do mundo, porém, isso quando temos o nosso próprio mundo. E eu tinha meu mundo, ali, naquele lugarzinho, simples, cheio de pessoas reais, verdadeiras, como nunca vi igual.

O Bom Pastor foi uma escola para mim, de amor, solidariedade e lealdade. Com meus amigos de lá e com meus pais, aprendi a doar, perdoar e confiar. Talvez, a felicidade que sentia era justamente o fato de ali ter amigos de verdade, uns apoiando e cuidando dos outros. Quando um amigo tinha uma obra, todos se reuniam para ajudar, e o dia de colocar a laje era a maior festa, as mulheres preparavam uma comida especial, na maioria das vezes feijoada e os homens compravam a cachaça, e depois da laje pronta, todos comemoravam comendo e bebendo. Uma hora muito especial era as sete horas da noite, nessa hora, em que o velho radinho de pilha, o único veiculo de entretenimento, passava a hora do Brasil. Nessa hora, todos se reuniam na rua ponta negra para acender uma grande fogueira, assar aipim, batata doce, bananas e ouvir e contar histórias de fantasmas e assombrações.

Éramos três famílias reunidas: a de dona Laurinda, com seus filhos Luciana, e Luciano e seu esposo Agenor, a de Adelaide, minha querida mãe preta, seus filhos pequenos Everaldo e André e seu esposo Oliveira, e a nossa família, eu, minha mãe, minha irmã Beth, meu irmão Alexandre, e meu pai. Também fazia parte dos componentes em volta da fogueira o Eugênio, a Lena, Vilma, Denise, e dona China, que vinham de outra rua um pouco distante, para compartilhar aqueles momentos especiais. O Eugênio adorava bananas assadas na fogueira, e eu adorava as histórias que ele contava sobre lobisomem.

Eu tinha um instinto moleque, menino, subia em pau de sebo, entrava em terrenos proibidos pra roubar frutas, principalmente bananas, sempre roubava bananas pra presentear o Eugênio, só pra ouvir suas incontáveis histórias. A Rua Ponta Negra era cercada de mato e currais, não havia luz e a grande fogueira iluminava, aquecia, e ainda assava a comida. Eu me lembro que esperava ansiosa o dia de lua cheia para ver a lua, linda, iluminando toda aquela escuridão, mas também, com a chegada da lua cheia, minha mente imaginativa viajava, eu não dormia, lembro que ficava a noite toda acordada na janela, esperando ver o ser que durante anos me fascinou e causou medo. O ambiente ali era propicio a mentes férteis, e uma das mais famosas assombrações do local era a mula-sem-cabeça, que diziam que aparecia no curral em frente a minha casa, nas noites de quinta pra sexta, e eu ficava acordada pra vê-la, e nada...

Minha infância foi mágica e cheia de calor humano e muitas lições de vida. Vida marcada pelo sobrenatural. Durante alguns anos eu sofri em demasia por não saber lidar com os fatos sobrenaturais que ocorriam em minha vida, desde que era ainda bem pequenininha. Ver pessoas dentro de copos d’água, ter premonições, ver pessoas falecidas. Lembro-me que uma certa madrugada, por volta das três horas da manhã, meus pais me acordaram, e me colocaram num circulo, onde dentro havia uma estrela, ou um pentagrama, não me recordo claramente. Minha mãe estava incorporada por um espírito, que me jogava perfume de alfazema, e azeite de dendê, meu pai se aproximou do circulo, e também foi banhado com os mesmos elementos. A entidade se dizia protetora e dizia que o universo conspiraria ao meu favor, e que minha caminhada seria brilhante. Com certeza a intenção de meus pais eram as melhores, porém para uma criança de nove anos, tudo parecia assustador, afinal, eu não estava reconhecendo a minha mãe, e não entendia o significado de tudo que estava acontecendo ali.

Uma certa vez sonhei com uma menina que eu nunca tinha visto na vida, e no sonho, era como se ela quisesse me falar algo, como se precisa-se de algo, mas eu não sabia o que fazer, eu não a conhecia, nunca havia a visto, a lembrança dela me atordoava, não conseguia apagá-la da minha mente, eu podia sentir a sua dor, a sua tristeza, sei lá...Até que um dia, fui ao enterro de uma amiga, e como é de hábito meu, fui passear no cemitério olhando os túmulos. Tive uma surpresa assustadora: vi a foto da menina num túmulo, me lembro que fiquei em estado de choque, como que em transe. Pensei: -Meu Deus, o que significa isso?! Mas como muitas coisas da minha vida, essa pergunta continua até hoje sem resposta. Outra coisa que sempre me assustava, era ver minha mãe em dois lugares ao mesmo tempo, me lembro que certa vez vi minha mãe no quarto deitada, porém, havia algo estranho com ela, parecia estar envolta numa luz branca, e estava completamente imóvel, eu a chamava, e ela não se mexia, foi quando do nada ela surge da cozinha perguntando o que eu queria, eu assustada disse: - Mãe, você estava aqui, como está ai? Não tem como! Minha mãe disse: - Não precisa ficar assustada, você deve ter visto o meu anjo de guarda. Não sei se o lugar, o fato de toda família vir do espiritismo contribuía para todos esses fatos. Uma das coisas mais assustadoras que me acontecia era quando do nada eu caia no sono, na frente de todos, as pessoas me viam como se eu tivesse dormido ou desmaiada, mas eu as via a minha volta, me chamando, perguntando o que houve, batendo em meu rosto, colocando álcool para eu inalar, e eu falando com elas, mas elas não me ouviam, era desesperador, eu podia ver eu mesma, saindo de mim, e lutava para retornar ao corpo.

O Bom Pastor também era um lugar mágico, parecia um desses lugarzinhos na roça, sem água, sem luz. Talvez isso tudo tenha colaborado com os fenômenos que aconteciam comigo. Em meio a dificuldades, lições de solidariedade. Apesar de todas as dificuldades, para nós ali era o melhor lugar do mundo. Ali aprendi valores que carrego até hoje comigo, conheci pessoas, que mais parecem ter saído de contos de fadas, pessoas especiais como minha mãe preta, que tinha o sonho de ser medica ou enfermeira, mas como teve uma infância muito pobre, na roça, não pode estudar, depois de casada, e com filhos, começou a fazer o que mas gostava na vida, ajudar ao próximo, trabalhando de voluntária em diversos hospitais, amada e querida por todas as equipes médicas por onde ela passava.

Quanto minha mãe de verdade, essa também passou a vida se doando em prol do próximo. Desde o gesto mais simples, ao mais sacrificante, um gesto simples, que me recordo ter um grande valor, era o fato de dividir o nosso óleo de amêndoas, para cabelos, com as meninas da rua. Minha mãe sentava nas ruínas da nossa varanda e começava a trançar nossos cabelos, os de Luciana, Vilma, Denise e Rose. Minha mãe adorava cuidar das meninas, vê-las bonitas e felizes. Meu pai também era uma figura singular, o português que ficou pobre de tanto ajudar os outros, contrariando tudo que se fala sobre portugueses. Ele era como um pai, um mantenedor para as crianças da rua, que quando avistavam o velho caminhão azul, bem longe, na curva da Bayer do Brasil, já começavam a gritar: - Lá vem o português! Lá vem o português! E assim, o morro ficava em festa, pois sempre que meu pai vinha do Ceasa, trazia frutas, queijos e verduras para distribuir para as famílias da rua. Lembro-me de uma certa vez em que ele fez um frete para uma fabrica de sapatos, e não cobrou em dinheiro, cobrou em mercadorias, pediu ao dono da fabrica, que desse a ele, sapatos com pequenos defeitos, para doar para as crianças. E quando ele chegou com os sapatos, mais uma lição de vida nos deu, queríamos escolher mais sapatos, porque éramos filhos dele e achávamos que isso nos dava um direito maior, e ele nos ensinou que devemos dividir, não devemos ser egoístas e mesquinhos. Ele disse: - Vocês são meus filhos, mas precisam igual às outras crianças, nem mais, nem menos, então devemos dividir igualmente para que as outras crianças também possam ficar felizes.

Tenho orgulho desse guerreiro, mais conhecido como Chico Maluco, que era de uma loucura fascinante, puro como um menino, contraditório, pois de sua boca saia os mais horrendos palavrões, e de suas mãos os maiores gestos de amor ao próximo, e de grandeza de ideais. Um homem cabeludo, descabelado, de botas, casaco de couro, semblante rude e desbocado, mas com o coração mais mole que já vi. Ajudava a todos, era o único que tinha carro nas redondezas e levava todo mundo no medico, amava os animais e deixava de comer para doar a quem tinha fome, e até mesmo para os animais. Meu pai expressão de amor Meu pai foi e continua sendo um herói para os moradores da rua ponta negra e para mim. Parece que estou vendo seus olhos, o jeito como ficavam quando via um vizinho doente ou necessitado, era cativante a maneira como se importava e se esforçava pelo próximo, nunca conheci de perto um homem igual a ele, que com certeza, mesmo com todos seus defeitos, é e sempre será meu maior exemplo de vida.

Lembro-me das vezes em que ele me contava histórias, e uma das histórias que eu mais gostava de ouvir era a história de amor dele e da minha mãe. Minha mãe vinha de uma família tradicional, onde era expressamente proibido falar palavrão, não podia falar alto ou rir alto. Estudo, cultura e etiqueta eram uma exigência. Meu pai, português, de Trás dos Montes, homem rude, criado em plantação, pai e mãe analfabetos. De cada dez palavras que saiam da boca do meu pai, nove eram palavrões, seu tom sempre alto, e mesmo que estivesse apenas conversando, parecia que estava brigando. Mas foi esse homem que entrou de cabeça numa guerra pela mulher amada, minha mãe. Eles tinham namorado um tempo, se separaram e ficaram uns bons tempos sem se ver, até que um dia se reencontram. Minha mãe estava grávida de seu ex-namorado, sem apoio da família, sem ter pra onde ir, sem emprego, e meu pai disse a ela que assumiria seu filho como um filho e que jamais faria diferença dele com os outros filhos e que o amaria com todas as forças e faria o melhor pelo bebê, e foi isso que ele fez pelo meu irmão Alexandre. Minha mãe conta que meu pai cuidava do bebê de madrugada, fazia as tarefas da casa quando chegava do trabalho.

A promessa dele foi cumprida de tal maneira, que meu irmão o ama demais até hoje. E sempre que pode está com ele e tem orgulho do pai que teve. Minha mãe também provou seu amor e gratidão por ele quando foi morar no Bom Pastor, pois ela teve a chance de trocar meu pai por um homem rico e não fez, foi leal a ele e passou muitas lutas ao seu lado. Meu pai se fazia de durão, não gostava de chorar na nossa frente nem demonstrar suas fraquezas, suas dores, mas era só olhar para dentro de seus olhos, e estava ali, pois era um ser muito transparente e verdadeiro. Foi o que comecei a perceber quando minha mãe teve que se internar para uma operação, eu o via sempre pelos cantos, com olhos tristes, rosto cabisbaixo... Na época não existia celular, e a visita era uma vez na semana e quem tinha um ente querido doente, morria de saudades. Nesse momento difícil da nossa vida, minha querida mãe Adelaide foi um anjo em nossas vidas, era ela quem cuidava de nós e de meu pai, lavava as nossas roupas, nos dava comida.

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